Brussel, 19 de dezembro de 2014.
Inicialmente tinha em mãos os livros “O inominável” de Samuel Beckett e o “Livro do desassossego” de Fernando Pessoa. Para mim era forte investigar a questão da identidade, ou melhor, o trânsito, o pluralismo e inconstância que existe nessa ideia. Sentia dentro e fora de mim um turbilhão de movimentos, transições, intenções, lugares, objetivos, focos e rotas disformes que me turvavam o pensamento. Dar voz a tudo isso, ou melhor corpo, ou melhor som, ou melhor um pouco de libertação à tudo isso de alguma forma me instigava o espírito naquele momento.
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| Vormingscentrum Destelheide |
Me fiz esta pergunta antes de ir ao Vormingscentrum Destelheide: "Sobre o quê eu quero falar hoje?"
Respondi a mim mesmo no word:
"Tenho tido tanto Banzo. Tudo está
sendo tão novo para mim. Acordo cheio de dúvidas, vou dormir ainda mais cheio de
incertezas. Se quero isso ou aquilo. Se quero quente ou frio, ou se quero o
meio. O meio termo. Se vou ou se fico, e aí me pergunto o por que faço certas escolhas. Talvez a vida seja uma só. Talvez não exista aqui e lá, esteja tudo
junto. Perguntar, escolher, faz-se necessário pelo movimento que isso causa? Estou imantado com minha mãe, meus irmãos, meus amigos, os lugares
que amo, que me são importantes. A Amazônia a fugacidade do Rio de Janeiro, o inóspito ar bucólico de Bruxelas... Tenho procurado está aqui, agora, presente,
como no teatro, sem me distanciar muito de mim. Mas fujo, me rebelo contra a
própria prerrogativa de estar aqui. Vou na internet e fujo para o Brasil, para os
problemas do Brasil, as eleições, a vida das pessoas da minha terra natal, as
notícias de família que me chegam a todo momento pelo whatzap. Então me atravessa a questão das fronteiras. Elas existem? Quem criou as fronteiras foram os homens, foram os imbecis dos
homens e seus sistemas. O mundo, a natureza, os fluxos da vida estão todos
irmanados em rede, em conexão. Um vibrar de cordas no meio da floresta ou do deserto me
arrepia a espinha aqui nesse sótão triangular do outro lado do Atlântico. Amanhã me pediram
para me apresentar, dentro da minha linguagem, mas qual será a minha linguagem? Seria
a palavra? Aquela que tanto tenho perseguido em outras línguas. Porque a
palavra? Me faltam palavras? Talvez sim. O que é ter palavra? Alguém a tem ou
ela é um sistema, um domínio independente de nossa existência? Me distraio muito, estou
transpassado por muitos ângulos para minhas questões. É bom e mal ao mesmo
tempo. Estou forte fraco como nunca. Os primeiros dias foram infernais, uma
luta severa comigo mesmo, um misto de muita coisa, de vontade de fugir e ficar
como poucas vezes senti na vida."
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| Vormingscentrum Destelheide |
Fernando Pessoa, em um dos textos do seu Livro do Desassossego me rebatia nos ouvidos da seguinte forma:
"Cheguei hoje de repente a uma sensação absurda e justa. Reparei num relâmpago íntimo que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto. Penso sempre, sinto sempre, estou caindo, depois de um alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito numa queda sem direção, infínítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas boiam todas as imagens que vi e ouvi no mundo - vão casas, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não nisto senão por uma geometria do abismo, sou o nada em torno do qual esse movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo circulo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda". Pag. 262.
| Região de Dworp, onde está localizado o Vormingscentrum Destelheide |
Chegando ao Vormingscentrum Destelheide, a mão na massa foi primeiramente sozinho, pois os outros já estavam imersos em suas pesquisas havia algumas semanas. Era necessário portanto iniciar um percurso próprio, seguir o que me movia, me inquietava, me latia dentro do peito, era essa a proposta do trabalho, do curso, ir fundo no que nos "latejada dentro". E, logo me veio à mente e no corpo, a urgência do verbo “Procurar”, sim, esse verbo que é movimento, é inquietude, não estático, eletricamente pulsante por algum tipo de busca, de lugares, de si, de tatear coisas...
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| Um dos salões de investigação em Destelheide |
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| Magritte Museum in Brussels |
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| O Filho do Homem. (1964) |
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| Not To Be Reproduced (Portrait of Edward James), 1937. René Magritte |
Fui para uma das janelas do centro experimentar a captura em vídeo do reflexo de minha imagem em justaposição com os reflexos do interior de uma sala que tinha um computador conectado a um projetor em cima de uma mesa rodeada por cadeiras vermelhas. Queria ser atravessado por aquele jogo de reflexos e sons ambiente que me cercavam vindo da floresta ao meu redor. Ver a experiência aqui:
http://www.4shared.com/video/gEmxBViOba/DSC_0014.html
http://www.4shared.com/video/gEmxBViOba/DSC_0014.html
Para esta vivência em Destelheide, selecionei alguns objetos, no desejo de manipula-los: VELAS, eu queria luz, algum tipo de luz manual. Velas se consomem (ver trabalho de Nan Goldin). Sobre ser vela? Eu separei um ESPELHO também, pelo enigma, pelo dentro e fora, pela imagem que atravessa, iguala, rompe e se distorce. VELA e ESPELHO: um começo. Na vela encontrei o FOGO, um tal saber, o Prometeu, a sala do Santuário de Nossa Senhora de Aparecida (Aparecida do Norte- SP) que visitei na adolescência e onde fiz esse vídeo de celular...
http://www.4shared.com/video/SnCB2L5oce/MOV01270.html
... a auto imolação de um monge em protesto no Vietnã (1963), a fumaça, a chama que me chamou aqui.
Fogo, vela, espelho.
Veio então o escuro, a sala vazia, o breu, eu no breu, o breu em mim, o fogo nascendo no escuro e junto com ele o som de meus passos no escuro, a vela se acendendo e me revelando ao público. Junto à luz de velas vinha o som que ecoava de minhas botas. Meus pés calçados de pesadas botas faziam um som oco na sala escura. A plateia estava sentada rés do chão.
http://www.4shared.com/video/SnCB2L5oce/MOV01270.html
... a auto imolação de um monge em protesto no Vietnã (1963), a fumaça, a chama que me chamou aqui.
Fogo, vela, espelho.
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| O monge Thich Quang Duc ateou fogo no próprio corpo como forma de protesto contra a perseguição religiosa empreendida pelo governo do Vietnã do Sul,, em 1963 |
Veio então o escuro, a sala vazia, o breu, eu no breu, o breu em mim, o fogo nascendo no escuro e junto com ele o som de meus passos no escuro, a vela se acendendo e me revelando ao público. Junto à luz de velas vinha o som que ecoava de minhas botas. Meus pés calçados de pesadas botas faziam um som oco na sala escura. A plateia estava sentada rés do chão.
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| Fatima candles. Nan Goldin. Portugal.1998. |
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| Blue Bathroom. Nan Goldin |
Tudo isso, mais tarde, me levou a um túnel de mesas que posicionei no interior da sala em que trabalhava. Pus uma ao lado da outra, de forma que fosse possível passar por baixo delas em meu percurso. Fiquei algumas horas experimentando apenas esta ação: agachar e passar pelo túnel, procurando estar muito atento a tudo que sentia e percebia em mim ao longo daquela viagem subterrânea. Daquelas sensações ali embaixo vieram vontades de dizer coisas, palavras soltas, desconexas, chamados, perguntas a mim mesmo, mais perguntas que respostas. Passando pelo túnel eu me perguntava e chamava por alguém, não sei, talvez chamasse a mim mesmo, ou por outros...
Antes do túnel encontrei uma pequena pia no canto da parede e nela descobri o eco que o barulho da água fazia ao sair da torneira. Encontrei no eco uma grande maravilha do espaço. A água saía da torneira e entrava pelo ralo da pia com uma majestade de sons dos quais eu me punha a imaginar a água inundando os canos internos das paredes e piso da sala. Imediatamente me veio a ideia de associar aquela sonoridade ao percurso que fazia agachado no interior do túnel. A água indo, em fluxo: the journey to inside me.
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| O túnel |
Antes do túnel encontrei uma pequena pia no canto da parede e nela descobri o eco que o barulho da água fazia ao sair da torneira. Encontrei no eco uma grande maravilha do espaço. A água saía da torneira e entrava pelo ralo da pia com uma majestade de sons dos quais eu me punha a imaginar a água inundando os canos internos das paredes e piso da sala. Imediatamente me veio a ideia de associar aquela sonoridade ao percurso que fazia agachado no interior do túnel. A água indo, em fluxo: the journey to inside me.
Da viagem pelo túnel, do som imagético na sala escura, cheguei à uma das janelas de vidro que separava a sala de concreto do jardim-floresta. Foi então que desejei ir para fora, investigar o que haveria de instigante na relação com aquele novo espaço: o jardim-floresta (externo, ao ar livre, sem paredes, 360° de árvores verdejantes). Queria ser atravessado por aquela outra natureza espacial, sentir outras perspectivas de meu corpo em relação ao lugar, sair do escuro da sala para o clarão da luz do dia, da brisa que vinha das serras da região. E fui. Abri a janela e fui.
Do lado de fora, no jardim, tive como primeira ação: tirar do bolso uma camisa e tapar o rosto, num gesto bruto amarrei a face, anulava meu rosto (aquilo que é só meu). De rosto assim andei para trás, por entre as árvores, naquele jardim que era ladeira, um terreno inclinado com muitas arvores espaçadas quase que geometricamente como num tabuleiro de xadrez. O público, dentro da sala, me via pelo vidro. Eu caminhava de costas por entre as árvores - sem representação- eu mesmo andando de costas na floresta, experimentando ver/sentir sem ver.
Dentro da sala, enquanto eu estava no jardim, ecoava a gravação do seguinte trecho de "O inominável" de Beckett na voz de Marie, minha companheira de curso:
Ouviam Beckett/Marie viam a mim na floresta, (sem) rosto, em algum lugar do tempo e do espaço criado pela desconexão entre som e imagem. O que foi possível se criar, se sentir nessa ruptura de elementos? Talvez cada um dos presentes tenha projetado suas associações/abstrações. Era meu interesse dar margens às suas livres conexões/desconexões com aquele jogo. De propósito, eu não escutava o som que eles ouviam na sala para não me contaminar com nenhuma palavra ou possibilidade voluntária de ilustrar o discurso de Beckett. "O Inominável" era só deles, e meu, em algum lugar, em algum ponto involuntário.
Eu me escutava? Sim, escrutava meus passos na grama, vozes de pessoas ao longe, vento batendo nos galhos das arvores... Fiquei um tempo vagando por entre as árvores. Primeiramente buscando perceber o chão que pisava, investigando andar sempre de costas, e, à medida que ganhava mais confiança, ia arriscando acelerar o ritmo, andar sem medo, sem amarras, fluir como vento. Meu corpo quis correr, uma vontade imensa de esquentar-me (com um misto de adrenalina e medo de tropeçar, cair, rolar a ladeira, bater a cabeça ou o rosto nas arvores).
E fui!! Corri, corri de costas, de frente, de lado, em direções retilíneas e sinuosas. Depois de algum tempo nesse levante, naturalmente fui ficando ofegante, cansado, então foi quando tropecei e caí. Realmente. De fato.
A queda. Real. Necessária. Humana. Foi só então que pude sentir minha respiração. Foi aí que percebi que eu tinha respiração. Foi preciso cair para perceber que respirava. Que eu era ar. Que somos ar. E meu ar era forte, denso, quente, afastava a superfície do pano que cobria meu rosto, respirei ali com a sensação efusiva de uma grande descoberta: Somos feitos de ar, estou vivo porque respiro, respiro porque estou vivo. Sim, eu estava vivo. Disso eu precisava saber. Caí para saber que estava vivo.
De certo, nessa hora imaginei o pensamento deles ao me ver cair, sim, eles me viram. A queda, não pude escondê-la. Amém! Fiquei nela, por um instante eterno. E quando voltei a mim, quis correr novamente, meu corpo pedia, estava mais quente do que antes, corria com mais violência, intensidade, tesão e com muito mais medo.
| jardim do Vormingscentrum Destelheide |
| jardim do Vormingscentrum Destelheide |
Dentro da sala, enquanto eu estava no jardim, ecoava a gravação do seguinte trecho de "O inominável" de Beckett na voz de Marie, minha companheira de curso:
“Malone is there. Of his mortal liveliness
little trace remains. He passes before me at doubtless regular intervals.
(Unless it is I who pass before him? No, once and for all: I do not move.) He
passes, motionless. But there will not be much on the subject of Malone, from
whom there is nothing further to be hoped. Personally I do not intend to be
bored. (It was while watching him pass that I wondered if we cast a shadow.
Impossible to say.) He passes close by me, a few feet away - slowly, always in
the same direction. I am almost sure it is he. The brimless hat seems
conclusive. With his two hands he props up his jaw. He passes without a word.
Perhaps he does not see me. One of these days I'll challenge him. I'll say, I
don't know, I'll say something, I'll think of something when the time comes.
(There are no days here, but I use the expression.) I see him from the waist
up: he stops at the waist, as far as I am concerned. The trunk is erect. But I
do not know whether he is on his feet or on his knees. (He might also be
seated.) I see him in profile. Sometimes I wonder if it is not Molloy. Perhaps
it is Molloy, wearing Malone's hat. But it is more reasonable to suppose it is
Malone, wearing his own hat. (Oh, look, there is the first thing! Malone's
hat!) I see no other clothes. Perhaps Molloy is not here at all. Could he be,
without my knowledge? (The place is no doubt vast. Dim intermittent lights
suggest a kind of distance.) To tell the truth I believe they are all here (at
least from Murphy on). I believe we are all here. But so far I have only seen
Malone. Another hypothesis: they were here, but are here no longer. I shall
examine it after my fashion. Are there other pits, deeper down? To which one
accedes by mine? (Stupid obsession with depth!) Are there other places set
aside for us - and this one where I am, with Malone, merely their narthex? (I
thought I had done with preliminaries.) No, no, we have all been here forever,
we shall all be here for ever. I know
it.” The Unnamable. Pags 4 e 5. Samuel Beckett.
Ouviam Beckett/Marie viam a mim na floresta, (sem) rosto, em algum lugar do tempo e do espaço criado pela desconexão entre som e imagem. O que foi possível se criar, se sentir nessa ruptura de elementos? Talvez cada um dos presentes tenha projetado suas associações/abstrações. Era meu interesse dar margens às suas livres conexões/desconexões com aquele jogo. De propósito, eu não escutava o som que eles ouviam na sala para não me contaminar com nenhuma palavra ou possibilidade voluntária de ilustrar o discurso de Beckett. "O Inominável" era só deles, e meu, em algum lugar, em algum ponto involuntário.
Eu me escutava? Sim, escrutava meus passos na grama, vozes de pessoas ao longe, vento batendo nos galhos das arvores... Fiquei um tempo vagando por entre as árvores. Primeiramente buscando perceber o chão que pisava, investigando andar sempre de costas, e, à medida que ganhava mais confiança, ia arriscando acelerar o ritmo, andar sem medo, sem amarras, fluir como vento. Meu corpo quis correr, uma vontade imensa de esquentar-me (com um misto de adrenalina e medo de tropeçar, cair, rolar a ladeira, bater a cabeça ou o rosto nas arvores).
E fui!! Corri, corri de costas, de frente, de lado, em direções retilíneas e sinuosas. Depois de algum tempo nesse levante, naturalmente fui ficando ofegante, cansado, então foi quando tropecei e caí. Realmente. De fato.
A queda. Real. Necessária. Humana. Foi só então que pude sentir minha respiração. Foi aí que percebi que eu tinha respiração. Foi preciso cair para perceber que respirava. Que eu era ar. Que somos ar. E meu ar era forte, denso, quente, afastava a superfície do pano que cobria meu rosto, respirei ali com a sensação efusiva de uma grande descoberta: Somos feitos de ar, estou vivo porque respiro, respiro porque estou vivo. Sim, eu estava vivo. Disso eu precisava saber. Caí para saber que estava vivo.
De certo, nessa hora imaginei o pensamento deles ao me ver cair, sim, eles me viram. A queda, não pude escondê-la. Amém! Fiquei nela, por um instante eterno. E quando voltei a mim, quis correr novamente, meu corpo pedia, estava mais quente do que antes, corria com mais violência, intensidade, tesão e com muito mais medo.
Foi então que senti em determinado momento que era hora de parar. E fui, por conta própria, embora. Saí do ângulo de visão deles, o da janela. Só me viam pelo vidro - creio - ao som das arquiteturas sonoramente desmoronadas do "Inominvável".
| Primeira e Segunda Parte do Roteiro de Ações |
| Terceira Parte do Roteiro de Ações/ Abaixo: um dos motes da pesquisa |
Por Wellington Dias
Orientação de Pesquisa: Geert Opsomer (Theater VI. Rits School of Arts- Erasmus Hogeschool of Brussels)










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