sábado, 3 de janeiro de 2015

Identity. Parte II



Continuando o processo, dirigi 3 atores (Christiaam Mariman, Marie Pien e Stefan Gota) em minha pesquisa sobre "Identidade". Como ponto de partida propus no primeiro dia de trabalho uma improvisação onde todos estivessem dentro de um saco de pano de cor laranja. 

Selecionei a  sala do controle de luz enquanto espaço de jogo cênico, pois desejava que toda a ação fosse vista pela plateia através dos vidros das janelas, num voyeurismo de aproveitar a poluição visual do lugar (repleto de restos, objetos, coisas inutilizadas como papéis, latas, sapatos, luvas, caixas, jornais, etc). 










Por alguns dias estive com os atores ali, experimentando no espaço uma movimentação expressiva no interior do saco laranja que foi se transformando numa grande bola-ovo-ser-estranho de locomoção cômica e grotesca. Deixei que tivessem total liberdade de experimentar ações diversas daquele elemento no espaço, e fui registrando os momentos em que enxergava jogos e tensões possíveis de serem aprofundados dentro das perguntas sobre Identidade que me moviam: fragmentação, sobreposição, multiplicação, trânsito, tensionamento, coexistência, etc.

Tive como inspiração para o processo as seguintes imagens e trabalhos:


The elephant man by David Bowie

Encounter, C-type print. Alix Marie

Giles Hutchinson

Nan Goldin

Orlando, instalation. Alix Marie

Antony Gormley

Berlinde de Bruyckere

Berlinde de Bruyckere

Berlinde de Bruyckere

Berlinde de Bruyckere

Berlinde de Bruyckere

O fantasma. Christofer Mckenney

Leah Gordon Picasso

Laura Williams

Máscaras. Barbora Balková
Máscaras. Barbora Balková

Máscaras. Barbara Balková

O fantasma. Christofer Mckenney

Dr. Decker Masks

Not To be Reproduced (Portrait of Edward James). 1937. René Magritte

Nan Goldin
O Fantasma. Christofer Mckenney


Vimos que seria melhor ao invés de 3 atores no interior do saco, termos apenas 2, pois assim teríamos maiores possibilidades de desenhos, movimentações e criação de jogos com a coisa.

Me interessava encontrar os conflitos que aquele saco podia estabelecer com o espaço e seus objetos. Esse era o meu desejo enquanto direção: explorar jogos/conflitos produzidos pela relação entre o Ser-Saco, Espaço e os Objetos. 

O Saco é uma referência direta ao "Inominável" que vem me acompanhando desde o início de minhas pesquisas. O Saco é o tudo e o nada. Contém as partes do todo e o vazio ao redor.

À medida que a improvisação foi avançando, Marie e Stefan, descobriram conflitos entre as partes de corpo que saíam para fora do saco, como a disputa entre a perna e a cabeça que se revelam ao público enquanto membros independentes e dependentes um do outro. Descobriram também a surpresa, o medo e a fome do Saco em contato com os objetos espalhados pela sala.




Foi então que propus a separação, o parto do Homem que estava dentro do saco. E dessa proposição veio uma série de experiências com esse "Homem Primeiro" que nascia de uma espécie de Ovo, e (re) conhecia as coisas do mundo pelos 5 sentidos ( tato, olfato, paladar, gustação e audição), até se defrontar com o próprio reflexo diante do espelho, ou a percepção de ser outro. 




Antes da chegada diante do espelho, Stefan e eu investigamos nuances onde esse Homem não se restringisse a um Primata, mas que pudesse ter a humanidade e animalidade de um Ser bicho/Ser gente, uma mescla de naturezas, um lugar de passagem e atravessamentos.

Do Homem espelhado surge o Homem nº 2 (Christiam) através do vidro, do lado de fora da sala, repetindo todas as ações do Homem Primeiro, num jogo de sombras. O Homem nº 2 entra no espaço e se inicia uma alternância de jogos, onde em alguns momentos são a mesma pessoa e em outros, pessoas diferentes. Esse brinquedo evolui para uma disputa territorial entre eles e culmina na expulsão do Homem Primeiro pelo Homem nº 2 do espaço.




O Homem nº 2 se torna protagonista da ação agora, dono do espaço e na sua solidão é surpreendido pelo Saco Laranja. Numa luta entre os dois, sua cabeça é engolida pelo Saco, que antes deste gesto final lhe toca a face- sua possível identidade-, devorando-a ou fundindo-se à ela.




Há uma cena-prólogo, que antecede a entrada do Saco no espaço, onde aparece um Outro Homem no canto da sala com o rosto coberto por um pano e uma vela na mão. Sua ação consiste em bater nas paredes com as mãos como que à procura de um caminho na escuridão e, de repente, sente que bate em alguma superfície diferente, que  era a de uma máquina. Ele imediatamente abre a mesma e dela sai um grande feixe de luz acompanhado de um som de baleia, leva um susto, fecha-a e depois de alguns segundos, torna a abrir a porta da máquina, e então, tem o corpo sugado, como que abduzido/devorado - mesmo contra sua vontade- pela máquina de luz e voz animalesca.

Acompanhe aqui o storyboard e o vídeo desta experiência:

http://www.4shared.com/video/cEEvWpwTba/Identity.html?




Por Wellington Dias

In Rits School of Arts-Erasmus Hogeschool Brussels
Theater VI. Orientação de Pesquisa: Geert Opsomer e Johan Dehollander






sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Identity. Parte I

Brussels, 02 de janeiro de 2015.

A pesquisa iniciada no Vormingscentrum Destelheide (Dworp- Brussels- Belgium)- acerca deste primeiro tema que escolhi ser a minha porta de entrada nos universos que desejo trabalhar – teve sua continuidade nos galpões e espaços alternativos da Erasmus Hogeschool Brussel, por mais 3 semanas entre o final de outubro e a metade de novembro de 2014.

A proposta do workshop Theater VI, orientado por Geert Opsomer e Johan Dehollander consistia em nos debruçarmos na busca por experiências cênicas a partir de entrelaçamentos entre aspectos autobiográficos, questões/temas universais (Política, Filosofia, História, etc.) e estéticas/formas/referências (autores, literaturas, filmes, músicas, imagens, conceitos e etc.) de especial interesse para cada um de nós. Foi então, que todos decidiram por continuar aprofundando os conteúdos e primeiras experiências temáticas trabalhadas em Destelheide, e no meu caso, o problema da Identidade ( em seus fluxos) me era importante de perseguir.

Ao chegar ao novo espaço, meu primeiro interesse foi apenas de observação, pois eu já vinha imbuído de muitas motivações e referenciais a respeito do meu mote de trabalho. Imediatamente fui percebendo que as novas espacialidades do lugar eram bastante diversas em relação ao Vormingscentrum- onde explorei uma sala e um jardim com árvores- aqui, no prédio da Erasmus, além de dois grandes salões/galpões, contávamos com outras micro salas, depósitos, banheiros, cabines com portas e janelas de vidro, garagens, etc., ou seja, arquiteturas tão distintas que por si só já sugeriam infinitas formas de experimentação e sensorialidade.


vista frontal do prédio da Erasmus Hogeschool Brussel

sala de controle de luz


Após algumas horas de passeio e observação por todos os espaços, comecei a desenhá-los, na tentativa de tomar maior consciência de suas plantas baixas, peculiaridades e recursos arquitetônicos (medidas, materiais, composições e etc.). Ao longo dos primeiros desenhos foram me surgindo imagens possíveis de figuras e objetos em diálogo com esses espaços: como um homem com o rosto amarrado por um pano que lhe escorria pelas costas, semelhante à uma corda ou trança. Fiquei a  imaginar a trajetória que essa figura poderia desenvolver pelos diferentes espaços enquanto ação física/visual de exploração desse prolongamento de tecido, repleto de cores, texturas, nó e surpresas.


Desenho Projeção I


Desenho Projeção II

Desenho Projeção III


 Nesse reconhecimento do espaço visualizei outras possibilidades de ações performáticas como: ser lavado por longas horas por jatos violentos de água vindos de uma grande mangueira de incêndio que havia em um dos galpões... imaginei como poderia se dar um rodízio dessa ação sendo executada pela audiência à alguns metros de distância de mim. À medida que caminhava, ia sendo assaltado por muitas visões vindas dos elementos que o espaço possuía de mais marcante: paredes grossas de tijolos, pisos lisos e lajotados, janelas altas de vidro, portões de garagens de metal, grandes andaimes de ferro com rodinhas, cabine com complexos controles e botões de luz do prédio, depósitos com restos de lixo, materiais de consertos de máquinas, etc.

Desenho Projeção IV

Enquanto primeira proposta física para um dos espaços resolvi experimentar receber meus companheiros de pesquisa e orientadores em um dos galpões, pondo-os um de cada vez no espaço, guiando-os pela mão até o ponto que demarquei ser o da audiência. Executava esta ação, de toque e guia, até que todos estivessem dentro do espaço. Eu havia experimentado esse mesmo conduzir em Destelheide, mas com a diferença que lá eles entravam em uma sala escura, e aqui, neste galpão, entravam no claro, então podiam me ver, olhar no olhos e com a maioria deles esse toque suscitou sorrisos, balbucios e silêncios posteriores. Me interessava de alguma forma estabelecer um lugar de maior proximidade, ritualístico, de ação simbólica entre mim e eles, a busca de um elo ou ligação primeira. Também fui inspirado por uma pintura que havia visto em um perfil que acompanho no facebook (berlin-artparasites ) na qual duas mãos se interligavam num toque sutilmente violento.



http://innocentbrutality.tumblr.com/

E, logo após esse momento, eu me distanciava deles, caminhando de costas em direção ao fundo do galpão, em linha reta, próximo à parede lateral, passando o meu olhar por cada um deles, fixamente, enquanto ia me distanciando. Fui atravessado então, pela vontade de limpar as mãos, as mesmas mãos que haviam trazido eles ali, tive vontade de limpá-las. Não sei bem o por quê, mas foi uma sensação que o caminhar de costas e o olhar fixo neles me causou e não reprimi porque me era espontânea/orgânica. Limpava-as em minhas costas, caminhando, olhando fixamente para eles, e via em seus semblantes uma certa dúvida e seriedade, talvez tentando entender o porquê daquilo (que mesmo para mim ainda não estava claro). Ali outra imagem me vinha à mente, a lembrança dest trabalho do fotógrafo tcheco Jan Saudek:

hungry for your touch. Jan Saudek

Cheguei ao fundo, onde havia posicionado uma cadeira no canto da sala, sentei e continuei a olhar para eles, agora numa distância muito maior, estavam muito longe de mim. A cena que se seguiu a isso, consistia em: Ouvir um barulho vindo de uma grande porta vermelha ao meu lado. Tirar um pano do bolso. Cobrir o rosto com ele. Pôr a mão direita no bolso da frente. Suspender a esquerda para o alto. Nesta marca entrava no espaço a voz gravada de Marie falando um trecho de “O inominável” de Beckett, e enquanto o som ecoava, eu percorria o galpão de rosto coberto, numa dança tosca, de movimentos quebrados, descontínuos, giros, quedas, corridas e dificuldades de locomoção, sem enxergar o espaço, tentando me guiar pelo instinto do movimento, tensão física, vertigem dos giros, sem a preocupação de como tudo isso estava chegando (ou não) a eles que me viam naquele lugar.

Aqui está a gravação do trecho de “O inominável” de Beckett por Marie Pien http://www.4shared.com/music/1-e1Vua9ce/voice_1.html


" Malone is there. Of his mortal liveliness little trace remains. He passes before me at doutbtless regular intervals. ( Unless it is I who pass before him? No, once and for all: I do not move.) He passes, motionless. But there will not be much on the subject of Malone, from whom there is nothing further to be bored. ( It was while iwatching him pass that I wondered if we cast a shadow. Impossible to say.) He passes close by me, a few feet away - slowly, always in the same direction. I am almost sure it is he. The brimless hat seems conclusive. With his two hands he props up his jaw. He passes without a word. Perhaps he does not see me. One of these days I'll challenge him. I'll say, I don't know, I'll say something, I'll think of something when the time comes. (There are no days here, but I use the expression.) I see him from the waist up: he stops at the waist, as far as I am concerned. The trunk is erect. But I do not know whether he is on his feet or on his knees. (He might also be seated.) I see him in profile. Sometimes I wonder if it is not Molloy. Perhaps it is Molloy, wearing Malone's hat. But it is more reasonable to suppose it is Malone, wearing his own hat. (Oh, look, there is the first thing! Malone's hat!) I see no other clothes. Perhaps Molloy is not here at all. Could he be, without my knowledge? ( The place is no doubt vast. Dim intermittent lights suggest a kind of distance.) To tell the truth I believe they are all here (at least from Murphy on). I believe we are all here. But so far I have only seen Malone. Another hypothesis: they were here, but are here no longer. I shall examine it after my fashion. Are there other pits, deeper down? To which one accedes by mine? (Stupid obssession with depth!) Are there other places set aside for us - and this one where I am, with Malone, merely their narthex? ( I thought I had done with preliminaries.) No, no, we have all been here forever, we shall all be here for ever. I know it" The Unnamable. Samuel Beckett.

Após essa experiência, tivemos uma conversa, onde discutimos sobre lugares de intersecção entre teatro e performance, entre as ações que se fazem "com" e "sem" a presença de uma audiência, os seus possíveis significados, demandas, meios expressivos de envolvimento, afetação de si e dos outros, o lugar do íntimo e do coletivo, de corpos que se comunicam e se isolam, os pólos e as interpenetrações de performances com esses canais. 
Em meu trabalho, achamos que havia a sinalização dessas possibilidades de diálogo, que talvez pudessem levar a mais perguntas sobre esses limiares e contaminações. Tornava-se possível então a tentativa de uma caminhada por essas pistas, elegendo pontos de aprofundamento, conexões, tensionamentos, abandonos e mudanças de rotas. 



"The lovers" (1928). René Magritte

Geert  e Johan fizeram alusão à pintura "The lovers", do surrealista belga René Magritte a partir da imagem que criei com a ação de cobrir o rosto com um pano e ficaram de trazer o quadro para termos em nosso acervo de pesquisa, no espaço que a cada um ficou destinado como sendo o seu "Laboratório/Oficina de Investigação" no salão, onde diariamente trazíamos materiais (filmes, músicas, imagens, livros, etc.) para compartilhar uns com os outros sobre os universos e temas que estávamos investigando individualmente.


Diário de Anotações I

Diário de Anotações II


Enquanto primeira investigação corporal no espaço, senti que não cabia a ideia de adaptação ou “reprodução fiel” do trabalho que realizei em Destelheide, principalmente com relação à seqüência dos quadros performáticos que criei naquele local, pois aqui nestes galpões, tudo ganhava outras dimensões, outras urgências, significados e modos de afetação a serem novamente perseguidos e redesenhados. 
Dessa primeira investida no espaço, optei por aprofundar a produção de sentidos/sensações a partir da ação de cobrir o rosto (revelar, esconder, indenominar, fragmentar, desumanizar identidades, sujeitos, corpos e etc.). Estendi o convite a meus 3 companheiros de turma, para que eu pudesse dirigi-los nessa investigação, e, tudo que se seguiu nesse processo foi ultra especial do ponto de vista das trocas, conexões, adensamentos, colaborações, contaminações de nossas inquietações, aprendizados e afetos de grupo.

Aqui, um pequeno vídeo de uma improvisação de som e corpo que empreendemos no espaço dentro da pesquisa de direção de Marie Pien: 

https://www.facebook.com/video.php?v=10205143021354617&set=vb.1217144872&type=2&theater


Por Wellington Dias

In Rits School of Brussel

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Residência Artística no Vormingscentrum Destelheide. Dworp- Brussel-Belgium.

Brussel, 19 de dezembro de 2014.


Inicialmente tinha em mãos os livros “O inominável” de Samuel Beckett e o “Livro do desassossego” de Fernando Pessoa. Para mim era forte investigar a questão da identidade, ou melhor, o trânsito, o pluralismo e inconstância que existe nessa ideia. Sentia dentro e fora de mim um turbilhão de movimentos, transições, intenções, lugares, objetivos, focos e rotas disformes que me turvavam o pensamento. Dar voz a tudo isso, ou melhor corpo, ou melhor som, ou melhor um pouco de libertação à tudo isso de alguma forma me instigava o espírito naquele momento.


Vormingscentrum Destelheide
Me fiz esta pergunta antes de ir ao Vormingscentrum Destelheide: "Sobre o quê eu quero falar hoje?"

Respondi a mim mesmo no word:

"Tenho tido tanto Banzo. Tudo está sendo tão novo para mim. Acordo cheio de dúvidas, vou dormir ainda mais cheio de incertezas. Se quero isso ou aquilo. Se quero quente ou frio, ou se quero o meio. O meio termo. Se vou ou se fico, e aí me pergunto o por que faço certas escolhas. Talvez a vida seja uma só. Talvez não exista aqui e lá, esteja tudo junto. Perguntar, escolher, faz-se necessário pelo movimento que isso causa? Estou imantado com minha mãe, meus irmãos, meus amigos, os lugares que amo, que me são importantes. A Amazônia a fugacidade do Rio de Janeiro, o inóspito ar bucólico de Bruxelas... Tenho procurado está aqui, agora, presente, como no teatro, sem me distanciar muito de mim. Mas fujo, me rebelo contra a própria prerrogativa de estar aqui. Vou na internet e fujo para o Brasil, para os problemas do Brasil, as eleições, a vida das pessoas da minha terra natal, as notícias de família que me chegam a todo momento pelo whatzap. Então me atravessa a questão das fronteiras. Elas existem? Quem criou as fronteiras foram os homens, foram os imbecis dos homens e seus sistemas. O mundo, a natureza, os fluxos da vida estão todos irmanados em rede, em conexão. Um vibrar de cordas no meio da floresta ou do deserto me arrepia a espinha aqui nesse sótão triangular do outro lado do Atlântico. Amanhã me pediram para me apresentar, dentro da minha linguagem, mas qual será a minha linguagem? Seria a palavra? Aquela que tanto tenho perseguido em outras línguas. Porque a palavra? Me faltam palavras? Talvez sim. O que é ter palavra? Alguém a tem ou ela é um sistema, um domínio independente de nossa existência? Me distraio muito, estou transpassado por muitos ângulos para minhas questões. É bom e mal ao mesmo tempo. Estou forte fraco como nunca. Os primeiros dias foram infernais, uma luta severa comigo mesmo, um misto de muita coisa, de vontade de fugir e ficar como poucas vezes senti na vida."

Vormingscentrum Destelheide

Fernando Pessoa, em um dos textos do seu Livro do Desassossego me rebatia nos ouvidos da seguinte forma: 

"Cheguei hoje de repente a uma sensação absurda e justa. Reparei num relâmpago íntimo que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto. Penso sempre, sinto sempre, estou caindo, depois de um alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito numa queda sem direção, infínítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas boiam todas as imagens que vi e ouvi no mundo - vão casas, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo. E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não nisto senão por uma geometria do abismo, sou o nada em torno do qual esse movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo circulo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda". Pag. 262.

Região de Dworp, onde está localizado o Vormingscentrum Destelheide

Chegando ao Vormingscentrum Destelheide, a mão na massa foi primeiramente sozinho, pois os outros já estavam imersos em suas pesquisas havia algumas semanas. Era necessário portanto iniciar um percurso próprio, seguir o que me movia, me inquietava, me latia dentro do peito, era essa a proposta do trabalho, do curso, ir fundo no que nos "latejada dentro". E, logo me veio à mente e no corpo, a urgência do verbo “Procurar”, sim, esse verbo que é movimento, é inquietude, não estático, eletricamente pulsante por algum tipo de busca, de lugares, de si, de tatear coisas...


Um dos salões de investigação em Destelheide

De posse do verbo, cheguei no espaço, cheguei na ação, na ação de procurar, de me procurar, de ser procurado e nela me perder de mim mesmo, me desconhecer, me achar no espelho, me questionar se realmente reflito, sou reflexo? se realmente há algo a ser mostrado, se sou aquilo que reflete, se projeta e se introspecta em outras imagens, possibilidades e fragmentos de identidades? As pinturas de Magritte me saltavam à lembrança, pois tinha visitado há poucos meses o Magritte Museum no centro de Brussels, e ficara fascinado diante dos originais de tantas obras desse, que junto com Salvador Dali é considerado um dos visionários da vanguarda surrealista européia.




Magritte Museum in Brussels
O Filho do Homem. (1964)


Not To Be Reproduced (Portrait of Edward James), 1937. René Magritte

Fui para uma das janelas do centro experimentar a captura em vídeo do reflexo de minha imagem em justaposição com os reflexos do interior de uma sala que tinha um computador conectado a um projetor em cima de uma mesa rodeada por cadeiras vermelhas. Queria ser atravessado por aquele jogo de reflexos e sons ambiente que me cercavam vindo da floresta ao meu redor. Ver a experiência aqui: 

 http://www.4shared.com/video/gEmxBViOba/DSC_0014.html


Para esta vivência em Destelheide, selecionei alguns objetos, no desejo de manipula-los: VELAS, eu queria luz, algum tipo de luz manual. Velas se consomem (ver trabalho de Nan Goldin). Sobre ser vela? Eu separei um ESPELHO também, pelo enigma, pelo dentro e fora, pela imagem que atravessa, iguala, rompe e se distorce. VELA e ESPELHO: um começo. Na vela encontrei o FOGO, um tal saber, o Prometeu, a sala do Santuário de Nossa Senhora de Aparecida (Aparecida do Norte- SP) que visitei na adolescência e onde fiz esse vídeo de celular...

http://www.4shared.com/video/SnCB2L5oce/MOV01270.html



... a auto imolação de um monge em protesto no Vietnã (1963), a fumaça, a chama que me chamou aqui. 
Fogo, vela, espelho. 
O monge Thich Quang Duc ateou fogo no próprio corpo como forma de protesto contra a perseguição religiosa empreendida pelo governo do Vietnã do Sul,, em 1963

Veio então o escuro, a sala vazia, o breu, eu no breu, o breu em mim, o fogo nascendo no escuro e junto com ele o som de meus passos no escuro, a vela se acendendo e me revelando ao público. Junto à luz de velas vinha o som que ecoava de minhas botas. Meus pés calçados de pesadas botas faziam um som oco na sala escura. A plateia estava sentada rés do chão. 

Fatima candles. Nan Goldin. Portugal.1998.



Blue Bathroom. Nan Goldin

Tudo isso, mais tarde, me levou a um túnel de mesas que posicionei no interior da sala em que trabalhava. Pus uma ao lado da outra, de forma que fosse possível passar por baixo delas em meu percurso. Fiquei algumas horas experimentando apenas esta ação: agachar e passar pelo túnel, procurando estar muito atento a tudo que sentia e percebia em mim ao longo daquela viagem subterrânea. Daquelas sensações ali embaixo vieram vontades de dizer coisas, palavras soltas, desconexas, chamados, perguntas a mim mesmo, mais perguntas que respostas. Passando pelo túnel eu me perguntava e chamava por alguém, não sei, talvez chamasse a mim mesmo, ou por outros... 


O túnel

Antes do túnel encontrei uma pequena pia no canto da parede e nela descobri o eco que o barulho da água fazia ao sair da torneira. Encontrei no eco uma grande maravilha do espaço. A água saía da torneira e entrava pelo ralo da pia com uma majestade de sons dos quais eu me punha a imaginar a água inundando os canos internos das paredes e piso da sala. Imediatamente me veio a ideia de associar aquela sonoridade ao percurso que fazia agachado no interior do túnel. A água indo, em fluxo: the journey  to inside me.


Da viagem pelo túnel, do som imagético na sala escura, cheguei à uma das janelas de vidro que separava a sala de concreto do jardim-floresta. Foi então que desejei ir para fora, investigar o que haveria de instigante na relação com aquele novo espaço: o jardim-floresta (externo, ao ar livre, sem paredes, 360° de árvores verdejantes). Queria ser atravessado por aquela outra natureza espacial, sentir outras perspectivas de meu corpo em relação ao lugar, sair do escuro da sala para o clarão da luz do dia, da brisa que vinha das serras da região. E fui. Abri a janela e fui. 
jardim do Vormingscentrum Destelheide


jardim do Vormingscentrum Destelheide


Do lado de fora, no jardim, tive como primeira ação: tirar do bolso uma camisa e tapar o rosto, num gesto bruto amarrei a face, anulava meu rosto (aquilo que é só meu). De rosto assim andei para trás, por entre as árvores, naquele jardim que era ladeira, um terreno inclinado com muitas arvores espaçadas quase que geometricamente como num tabuleiro de xadrez. O público, dentro da sala, me via pelo vidro. Eu caminhava de costas por entre as árvores - sem representação- eu mesmo andando de costas na floresta, experimentando ver/sentir sem ver. 

Dentro da sala, enquanto eu estava no jardim, ecoava a gravação do seguinte trecho de "O inominável" de Beckett na voz de Marie, minha companheira de curso:



“Malone is there. Of his mortal liveliness little trace remains. He passes before me at doubtless regular intervals. (Unless it is I who pass before him? No, once and for all: I do not move.) He passes, motionless. But there will not be much on the subject of Malone, from whom there is nothing further to be hoped. Personally I do not intend to be bored. (It was while watching him pass that I wondered if we cast a shadow. Impossible to say.) He passes close by me, a few feet away - slowly, always in the same direction. I am almost sure it is he. The brimless hat seems conclusive. With his two hands he props up his jaw. He passes without a word. Perhaps he does not see me. One of these days I'll challenge him. I'll say, I don't know, I'll say something, I'll think of something when the time comes. (There are no days here, but I use the expression.) I see him from the waist up: he stops at the waist, as far as I am concerned. The trunk is erect. But I do not know whether he is on his feet or on his knees. (He might also be seated.) I see him in profile. Sometimes I wonder if it is not Molloy. Perhaps it is Molloy, wearing Malone's hat. But it is more reasonable to suppose it is Malone, wearing his own hat. (Oh, look, there is the first thing! Malone's hat!) I see no other clothes. Perhaps Molloy is not here at all. Could he be, without my knowledge? (The place is no doubt vast. Dim intermittent lights suggest a kind of distance.) To tell the truth I believe they are all here (at least from Murphy on). I believe we are all here. But so far I have only seen Malone. Another hypothesis: they were here, but are here no longer. I shall examine it after my fashion. Are there other pits, deeper down? To which one accedes by mine? (Stupid obsession with depth!) Are there other places set aside for us - and this one where I am, with Malone, merely their narthex? (I thought I had done with preliminaries.) No, no, we have all been here forever, we shall all be here for ever. I know it.” The Unnamable. Pags 4 e 5. Samuel Beckett.

Ouviam Beckett/Marie viam a mim na floresta, (sem) rosto, em algum lugar do tempo e do espaço criado pela desconexão entre som e imagem. O que foi possível se criar, se sentir nessa ruptura de elementos? Talvez cada um dos presentes tenha projetado suas associações/abstrações. Era meu interesse dar margens às suas livres conexões/desconexões com aquele jogo. De propósito, eu não escutava o som que eles ouviam na sala para não me contaminar com nenhuma palavra ou possibilidade voluntária de ilustrar o discurso de Beckett. "O Inominável" era só deles, e meu, em algum lugar, em algum ponto involuntário. 

Eu me escutava? Sim, escrutava meus passos na grama, vozes de pessoas ao longe, vento batendo nos galhos das arvores... Fiquei um tempo vagando por entre as árvores. Primeiramente buscando perceber o chão que pisava, investigando andar sempre de costas, e, à medida que ganhava mais confiança, ia arriscando acelerar o ritmo, andar sem medo, sem amarras, fluir como vento. Meu corpo quis correr, uma vontade imensa de esquentar-me (com um misto de adrenalina e medo de tropeçar, cair, rolar a ladeira, bater a cabeça ou o rosto nas arvores). 


E fui!! Corri, corri de costas, de frente, de lado, em direções retilíneas e sinuosas. Depois de algum tempo nesse levante, naturalmente fui ficando ofegante, cansado, então foi quando tropecei e caí. Realmente. De fato.

A queda. Real. Necessária. Humana. Foi só então que pude sentir minha respiração. Foi aí que percebi que eu tinha respiração. Foi preciso cair para perceber que respirava. Que eu era ar. Que somos ar. E meu ar era forte, denso, quente, afastava a superfície do pano que cobria meu rosto, respirei ali com a sensação efusiva de uma grande descoberta: Somos feitos de ar, estou vivo porque respiro, respiro porque estou vivo. Sim, eu estava vivo. Disso eu precisava saber.  Caí para saber que estava vivo. 

De certo, nessa hora imaginei o pensamento deles ao me ver cair, sim, eles me viram. A queda, não pude escondê-la. Amém! Fiquei nela, por um instante eterno. E quando voltei a mim, quis correr novamente, meu corpo pedia, estava mais quente do que antes, corria com mais violência, intensidade, tesão e com muito mais medo. 

Foi então que senti em determinado momento que era hora de parar.  E fui, por conta própria, embora. Saí do ângulo de visão deles, o da janela. Só me viam  pelo vidro - creio - ao som das arquiteturas sonoramente desmoronadas do "Inominvável".


Primeira e Segunda Parte do Roteiro de Ações

Terceira Parte do Roteiro de Ações/ Abaixo: um dos motes da pesquisa


Por Wellington Dias


Orientação de Pesquisa: Geert Opsomer (Theater VI. Rits School of Arts- Erasmus Hogeschool of Brussels)